O Macaco


Para escapar da crueldade humana, um macaco se transforma em humano e expõe sua experiência aos membros de uma academia.
Por que ser diferente se podemos ser iguais? Essa é questão em Comunicação A Uma Academia, escrito por Franz Kafka em 1919 e que Juliana Galdino, dirigida por Roberto Alvim, reapresenta em curta temporada no Club Noir, em São Paulo.
Lutando para incorporar as qualidades e os defeitos do homem, o macaco de Kafka percorre em poucos anos a evolução que a espécie humana levou milênios para alcançar. Contudo ele ainda é mais animal que humano e isso lhe dá subsídios para uma análise sobre o nosso comportamento. O homem se afastou de sua natureza mas não conseguiu apagá-la de suas entranhas. Por isso o ódio e desprezo que ele desenvolve pelas outras espécies?
“Sua origem de macaco, meus senhores, até onde tenham atrás de si algo dessa natureza, não pode estar tão distante dos senhores como a minha está distante de mim”.
O macaco de Comunicação... envolve a atriz Juliana Galdino, praticamente se apoderando dela, nos pouco mais de 45 minutos de duração do espetáculo.
A transformação de Juliana em macaco é tão impressionante quanto as palavras do macaco humanizado de Kafka, enfatizando a hostilidade dos grupos dominantes e o esforço dos marginalizados para pertencer a esses grupos.
No espetáculo, um frágil e intransponível cordão de isolamento separa os membros da academia (nós, a platéia) do palestrante simeo. Esse cordão de isolamento representa o tênue fio que nos separa de nossa origem e também nosso distanciamento de tudo que nos incomoda.
O cenário minimalista abre espaço para um austéro e preciso jogo de luz e sombra. A presença de um soldado, o tempo todo em cena, incomoda. Ele vigia o macaco e representa o cerceamento da liberdade. E a cabeça de impala empalhado, pendurada na parede, mostra bem o destinho dos que não se adaptam.


Comunicação A Uma Academia
de Franz Kafka
Com Juliana Galdino e José Geraldo Jr.
Direção de Roberto Alvim
Curta Temporada
Terças e Quartas-feiras, às 21 h.
Ingressos a R$ 20 e R$ 10,00
Club Noir
Rua Augusta, 331 - São Paulo
Fone: 11 3120 4813

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Déjà Vu Histórico


Quando Arthur Miller escreveu As Bruxas de Salem, em 1953, usou a histeria religiosa de um dos períodos mais negros da história da humanidade, o da Santa Inquisição, para criticar o Macarthismo e a perseguição aos comunistas nos Estados Unidos.
O movimento criado pelo Senador Joseph McCarthy em 1951 baseava-se na ignorância, no preconceito e realizou uma verdadeira "caça às bruxas" da qual não escaparam pensadores, artistas e jornalistas da época. Na classe artística esse período ficou conhecido como Red Scare Era, a Era do Pânico Vermelho.
Se na idade média o simples fato de possuir um gato preto podia levar alguém à fogueira, durante o Macarthismo qualquer vestígio de pensamento "anti-americano" podia classificar o indivíduo como comunista e levá-lo à prisão, tortura e morte. Algo bem próximo ao que vivemos no Brasil durante o governo militar nos anos 60 e 70.
A Santa Inquisição foi criada em 1.184 e existiu até 1.821. Estima-se que tenha feito 9 milhões de vítimas. O Macarthismo durou pouco mais de 1 década e matou bem menos gente mas ocupa seu lugar na lista de momentos vergonhosos da história da humanidade.
A atriz e diretora Juliana Galdino resgata o clássico de Arthur Miller em uma versão muito particular. Trabalhando a luz ou a ausência dela, Galdino explora a força do texto e a interpretação vigorosa de um elenco de jovens e grandes talentos. Destaque para Fernando Gimenez, perfeito na pele do personagem John Proctor; e a surpreendente performance de Fernanda Valêncio como a escrava Tituba.
Com duração de aproximadamente 1 hora o espetáculo parece durar apenas alguns minutos, tamanha a tensão que envolve atores e expectadores. Nada separa o público do palco. Ao contrário. Sentados na platéia somos parte da trama, envoltos pela mesma escuridão nos tornamos cúmplices silenciados pelo medo.
Bruxas, em cartaz no Club Noir, é um espetáculo primoroso e, como todos os trabalhos de Juliana Galdino, não é entretenimento. É um convite a pensar, a refletir.

Bruxas
Adaptação de As Bruxas de Salem, de Arthur Miller
IV Paralela Noir
Cia Club Noir
Direção de Juliana Galdino
Em cartaz até 18 de dezembro no Club Noir
Rua Augusta, 331 - Consolação - São Paulo
Sábados às 21 h e Domingos às 20 h
Ingressos gratuitos
(Retirar 1 hora antes do espetáculo)

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Diderot, O Libertino


Meu amigo, o arquiteto Gustavo Gasparoto, tem uma frase ótima: "Deus deu um cu para cada um, justamento para que cada um cuide do seu".
Lembrei muito dessa frase após assistir a peça O Libertino, dirigida por Jô Soares e estrelada por Cássio Scapin. Se Diderot me perguntasse o que escrever no verbete "Moral" de sua enciclopédia, certamente minha sugestão seria a frase de meu amigo.
E, resumindo a ópera, essa é a discussão mega-divertida proposta pelo texto de Eric Emmanuel Schmitt, em cartaz no teatro Cultura Artística Itaim até 27 de novembro.
Sempre com sessões lotadas, O Libertino é um dos grandes sucessos da temporada e milhares de pessoas já gargalharam com o drama do libertino Diderot, em conflito com seus próprios conceitos, na hora de formular uma definição do que é a Moral, para expor em sua famosa enciclopédia.
O que mais me chamou a atenção no espetáculo foi a concepção à "moda antiga". Fazia algum tempo que eu não via uma peça de teatro com cortina, cenários... Lembra? Era assim antes de alguém decretar que teatro moderno é aquela coisa árida, vazia.
Mas certamente o grande destaque de O Libertino é a atuação de Cássio Scapin, comprovando ser um dos principais atores de sua geração.
As caras do Diderot de Scapin, diante de situações mega saia-justa, são impagáveis. A intepretação estilizada de Erica Montanheiro, como a filha do filósofo, também é muito engraçada.
Mas o melhor de tudo é a conclusão de que não há como definir Moral. Na prática cada um tem sua própria definição e age como lhe convém, independente das convenções socias.
E o verbete acabou não entrando na enciclopédia.

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