Picasso e o Pequeno Malandro

Muitos cachorros fizeram história no mundo das artes e alguns se tornaram verdadeiras celebridades, como Rin Tin Tin e Lassie. Mas nenhum deles se iguala à Lump.


A história desse pequeno Dachshund tem dois começos. O primeiro foi em Stuttgart, na Alemanha, onde nasceu e foi comprado pelo fotojornalista David Douglas Duncan que o levou para viver com ele em Roma.
Seu nome de batismo é alemão e significa "malandro". Sabe-se lá porque Duncan escolheu esse nome mas não poderia ter feito melhor escolha.
Duncan amava Lump mas havia um terceiro personagem na história, um gigantesco e ciumento Galgo Inglês que, desde o início, deixou bem claro que Lump não era bem vindo. A vida nômade do fotógrafo e as frequentes brigas entre os dois cães não deixaram outra alternativa senão separar a família.
E foi assim que em uma manhã ensolarada de primavera, em 1957, à bordo de um vistoso Mercedes Benz, Lump & Duncan viajaram para a Villa La Californie, a propriedade de Pablo Picasso nos arredores de Cannes.
Duncan visitava frequentemente Picasso. Eram grandes amigos. Durante a viagem o fotógrafo foi contando à Lump sobre o pintor. Ele ouvia tudo enquanto apreciava a belíssima paisagem. Quando chegaram a seu destino, Lump já sabia que ali começava sua segunda história e ele estava decidido a fazer de Villa La Californie o seu lugar.
A recepção não poderia ser mais calorosa. De cara, Lump ganhou uma pintura sua feita em um prato pelo gênio - e agora seu amigo - Pablo Picasso. A cena foi devidamente registrada por Duncan e esse retrato de Lump pintado em um prato está avaliada hoje em mais de 50 mil dólares.


Picasso amava cachooros mas Lump foi o único que o pintor costumava carregar no colo. Seus filhos Paloma e Claude também amavam o malandrinho, assim como seus amigos ilustres, entre eles Yves Montand e Simone Signoret.
Picasso também imortalizou Lump na série de 45 telas inspiradas em As Meninas de Velásquez. No lugar do snobe cão de caça em primeiro plano está o bem humorado Lump, roubando a cena.


Infelizmente em 1963 Lump e Picasso se separaram. A casa cheia de escadas que o cãozinho costumva subir e descer correndo atrás das crianças ou seguindo seu amigo, fizeram-no desenvolver um grave problema de coluna e Duncan o levou para ser tratado em Stuttgart com o veterinário especialista na raça.
Lump ainda viveu mais 10 anos, sob os cuidados de Duncan, vindo a falecer em 1973. Curiosamente, uma semana após seu falecimento, Picasso também morreu.
Lump & Picasso se tornaram objeto fotográfico de Duncan em todas as suas visitas. O amor do fotógrafo à dupla renderam um livro lançado em 2007, "The Dog Who Ate A Picasso".


Sobre Lump, Picasso disse certa vez: "ele não é um cachorro, ele não é um homem pequeno, ele é outra pessoa."





para Julie

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O Fotógrafo do Surrealismo


Nos tempos em que efeitos especiais em fotografia exigiam muito mais conhecimento, trabalho e talento do que manusear o Photoshop, existiu um fotógrafo que quebrou todos os conceitos estéticos de seu tempo e se transformou em um artista respeitado e adimirado por nomes como Salvador Dali, Alfred Hitchcock, Jean Cocteau, Albert Einstein, entre muitos outros.
O russo Philippe Halsman nasceu em Riga, em 1906. Estudou engenharia elétrica em Dresden e, aos 22 anos, foi julgado culpado pela morte de seu pai, estranhamente ferido durante um passeio nos Alpes Austriacos. A prisão de Halsman movimentou a intelectualidade da época, que apontou o caso como perseguição aos judeus. Albert Einstein e Thomas Mann escreveram em defesa do rapaz que foi libertado após 4 anos de reclusão, sob a condição de nunca mais voltar à Austria.
Halsman foi para Paris onde começou a colaborar para a Vogue e tornou-se conhecido como um dos melhores fotógrafos de retratos ao clicar famosos como Andre Gide, Marc Chagall, Le Corbusier e André Malraux. Halsman utilizava uma lente dupla desenvolvida por ele mesmo para sua Pentax, obtendo um efeito de foco como nunca antes visto.


Quando a França foi invadida pelos nazistas, ele refugiou-se em Marselha e depois, com a ajuda de um amigo de Einstein, conseguiu visto para os Estados Unidos, onde trabalhou principalmente como fotógrafo de publicidade a princípio, passando depois a fotografar para a revista Life.
No começo da década de 40 conhece Salvador Dali e juntos desenvolvem vários projetos. Em Dali Atomicus, de 1948, eles exploram a ideia de suspensão bem ao estilo do gênio espanhol e essa parceria acaba conferindo a Halsman o título de fotógrafo surrealista. Em 1951 eles lançam In Voluptas Mors, onde Dali aparece junto a uma caveira formada por corpos de mulheres nuas. Em 1954 é lançado o livro Dali's Mustache, um compêndio de todos os trabalhos da dupla.


Consagra-se como fotógrafo preferido de celebridades como Brigitte Bardot, Audrey Hepburn, Liz Taylor, Grace Kelly e muitas outras. Mas Marilyn Monroe foi com certeza a grande paixão das lentes de Halsman, assim como fica clara a paixão de Marilyn pelo olhar dele. São dezenas de fotos da atriz, muito além do que os outros fotógrafos conseguiam captar.


Em 1959 acontece o lançamento de Philippe Halsman's Jump Book, com 178 fotos de personalidades da época... pulando! Entre elas: A família Ford, o Duque e a Duquesa de Windsor e Richard Nixon. A idéia deste trabalho surgiu em 1951 quando ele foi convidado pela NBC para fotografar uma grande lista de comediantes da época. Entre os gracejos dos humoristas para posar, Halsman percebeu que "quando você pede para uma pessoa pular, ela fica tão concentrada no pulo, que a máscara cai".


Sua foto mais famosa no entanto é de 1947 onde seu amigo Einstein aparece visivelmente triste e arrependido por sua colaboração nos estudos que levaram à fabricação da primeira Bomba Atômica. Essa foto posteriormente, em 1966, virou selo e em 1999 estampou a capa da Time sob o título "Homem do Século".


Philipe Halsman morreu em 1979, em New York.

Mais fotos de Halsmn em: http://pinterest.com/tracosurbanos/philippe-halsman/



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30ª Bienal de Artes de São Paulo


Conceituar a Arte Contemporânea é um assunto que pode render longas e acaloradas discussões, acadêmicas ou não, sem contudo chegar a conclusão alguma. Mesmo porque, na Arte, nenhuma verdade é definitiva.
Foi nos anos 70 que, já não cabendo nos limites da vanguarda modernista, que a arte resolveu vestir seu próprio tempo, refletindo uma sociedade em profunda (e confusa) transformação.
John Rajchman disse que "não há arte sem uma busca por novas idéias de arte, novas ideias do que seja a arte e de suas relações específicas com as instituições artísticas e com o próprio pensamento". A arte em si é toda uma cadeia que tem origem na idéia, toma forma na composição de materiais e, por fim, é conceituada pelas instituições. Quando Kant inventou a disciplina "estética", estabeleceu esse link entre o a idéia e o pensamento levando em conta as pressuposições do juízo, até mesmo quando buscam um rompimento com as institualizações.
Nas últimas décadas o fenômeno da globalização vem interferindo violentamente nas artes, influenciando toda a produção e nos forçando o tempo todo a rever nossos conceitos. Na arte contemporânea não existe uma cadeia pré-estabelecida, muito ao contrário, a subversão da ordem talvez seja sua principal característica. O sujeito da arte não é necessariamente o artista, assim como a arte não é necessariamente o produto e nem as instituições são necessariamente a parte filosófica do processo.
Assim sendo, como então definir ou, pelo menos, como começar a entender a Arte Contemporânea?


Visitando a 30ª Bienal de Artes de São Paulo chega-se à conclusão que a melhor resposta é não fazer perguntas. A arte não é uma resposta. A arte é o sentimento sobre aquilo que se expõe. E se hoje tudo pode ser exposto, todos os sentimentos são válidos.
Atento às reações de um grupo de jovens que, talvez pela primeira vez, visitavam uma exposição de arte, ouvi repetidas vezes a expressão "muito louco". Não sei se essa expressão tem algum outro significado para essas gerações depois da minha mas achei quase genial essa conceitualização tão simplória e, ao mesmo tempo, tão ampla e tão despida da necessidade de classificar.
A loucura é a estranheza, o subversivo, o não-establishment. A busca do belo no preríodo clássico foi gradativamente substituída pela busca do novo, por mais estranho (ou louco) que o novo possa parecer. A estranheza que Duchamp causou com aquela roda de bicicleta sobre um banquinho ou assinando um mictório, despertou uma nova consciência sobre o que é a arte nos tempos atuais. Livre da busca do belo, a arte ampliou ao infinito suas possibilidades estéticas e filosóficas, abrindo-se para novas/outras interpretações. E Duchamp, na época, foi chamado de louco por muitos, assim como Nijinski com o seu L'après-midi d'un faune.


E a loucura muitas vezes parece ser o estado mais pleno de consciência. E isso nãoéuma exclusividade da Arte Contemporânea. Os artistas sempre carregaram a aura de loucos, ou por estarem muito à frente de seu tempo ou por serem loucos mesmo.
E o grande destaque da 30ª Bienal de Artes de São Paulo é Arthur Bispo do Rosário, um dos mais perfeitos exemplos da simbiose de loucura e genialidade, que construiu toda sua obra durante os 50 anos em que esteve internado em hospitais psiquiatricos, utilizando as sobras e o lixo da sociedade da qual viveu excluído. Arthur Bispo do Rosário talvez seja o exemplo mais claro do que seja a Arte Contemporânea sem contudo defini-la ou fechá-la como conceito. Sua obra misturada à sua vida ou independente dela, mostra que muito mais do que a beleza, o estranho está nos olhos de quem vê.



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Canções do Destino


Movimentos são quase imperceptíveis. As cenas são como telas pintadas, como fotografias. Poéticas. E se alternam lentamente. É como observar uma rosa se abrir ou uma árvore crescer. Os olhos não percebem mas a vida está sempre em movimento.
>> A impermanência é uma constante de toda vida, diz Lin Lee-Chen, um dos maiores nomes da dança contemporânea, coreógrafa e diretora da companhia Legend Lin Dance Theatre.
Lin Lee-Chen levou 9 anos para compor Chants de la Destinée, o belíssimo espetáculo que fecha a trilogia iniciada em 1995 e que é fruto de uma intensa meditação sobre o Céu, a Terra e o Homem.


Tudo começa de forma ritualística. Velas acesas em pontos estratégicos evidenciam que o palco é um altar, um lugar que precisa ser respeitado. A entrada dos músicos reforça o caráter ritual e prepara o público para a primeira parte do espetáculo. Lin desenha um jardim dos sonhos por onde passa um rio de águas majestosas. Tudo é extremamente harmonioso nesse jardim e nele vivem, de forma igualmente harmoniosa, dois irmãos cujo o compromisso é não perturbar jamais esse mundo sublime.
Na segunda parte do espetáculo, um deles quebra a promessa, desequilibrando todo o mundo à sua volta, secando o rio e trazendo uma onda de sangue e de dor. Em cena,o cantor Hou Ching-Chwen dá um show à parte e o som ensurdecedor dos tambores dão rítmo a uma guerra interminável e agoniante.
Por fim a solidão da morte, o castigo daquele que promove o desequilíbrio, que desrespeita a unidade. E a natureza pode então se reconstruir, mostrando que no mundo só há lugar para quem sabe viver em harmonia.


A inspiração, a filosofia e a estética são orientais, obviamente. Lin nasceu em Taiwan e lecionava dança na escola Chang-an para mulheres, antes de se lançar para o mundo. Mas não espere ver nada clichê, nada zen. Mesmo na primeira parte do espetáculo, onde tudo acontece de forma muito lenta, há uma certa tensão. Nós (platéia) estamos tão distantes daquele mundo equilibrado e harmonioso, que é impossível não ficarmos incomodados.
Quando por fim nos sentimos integrados ao jardim de Lin, vem a guerra. E aí nos sentimos incomodados com a violência, com o caos, com a destruição daquele mundo perfeito do qual já fazemos parte.


O espetáculo enfim é perfeito. Uma obra de arte na extensão mais ampla e mais estreita da palavra. A coreografia de Lin Lee-Chen exige uma movimentação impossível dos bailarinos, beirando a deformidade; a cenografia e a iluminação são absolutamente simples e com um efeito espantoso; a música é magnífica; o os figurinos de Tim Yip são dignos de uma exposição posteriormente.
Chants de la Destinée passou por São Paulo em 3 apresentações no Teatro Alfa, encerrando a Temporada de Dança 2012. E eu me sinto privilegiado por ter a oportunidade de assistir um espetáculo de Lin Lee-Chen.


para minha amiga Marcia Correa

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Oristéia II Fecha o Ciclo Ésquilo no Noir


Roberto Alvim não é um diretor fácil. Não é óbvio, não é previsível, não é comum.
Assistir seus espetáculos é experimentar nosso poder de adaptação a outras/novas possibilidades. Alguns têm mais, outros menos e alguns simplesmente não têm esse poder. E não conseguir se adaptar às propostas de Alvim não é fator excludente. Uma resposta reativa é uma possibilidade e, principalmente, se for a chave para um diálogo, um debate ou pelo menos para uma reflexão.
O que Alvim pretende com seu trabalho é gerar esse conflito produtivo, que nos leve a algum lugar além dos já estabelecidos. Que abra uma investigação maior do conteúdo e não simplesmente da forma. Como ele mesmo diz, "abrir buracos no real" para trazer à tona outros reais ou, talvez, deixar que tudo seja tragado para esse outro plano e reestabelecido de uma outra forma.
Durante os 6 últimos meses acompanhei como um fiel as estreias do Peep Classics Ésquilo, projeto que colocou em cena 6 das mais antigas peças que a humanidade tem conhecimento, adaptadas à essa nova proposta de dramaturgia que Alvim vem desenvolvendo no Club Noir.
A peça de estréia do projeto, lá no já longínquo mês de Junho, foi As Suplicantes. Um verdadeiro choque até para quem vinha acompanhando os últimos trabalhos de Alvim. Ele radicalizou completamente em sua proposta e colocou fragmentos do texto de Ésquilo em cena, com apenas uma lâmpada fria ao fundo e atores praticamente imóveis. Toda a força do espetáculo estava unica e exclusivamente nas palavras, na intenção delas.
Do choque ao desconforto foram só 2 espetáculos: Os Persas e Sete Contra Tebas, que estrearam na sequência, em julho e agosto, respectivamente. Do estranhamento passamos para a cumplicidade em setembro com a estréia de Prometeu. Quando nossos olhos começavam a se adaptar à escuridão, ele permitiu uma lembrança de luz. E assim foi também em Oristéia I, em outubro, até chegar em novembro com Oristéia II, o espetáculo que fecha magnificamente o projeto e nos permite pensar/sentir a obra como um todo.
A ausência perturbadora de luz dos espetáculos anteriores, ressalta o foco sobre o rosto de Clinteminestra, em seu momento de morte, concebida por Juliana Galdino em (mais) uma performance magistral. Na sequência um blackout nos (des)prepara para o foco traiçoeiro no monólogo final do Orestes interpretado pelo jovem e surpreendente ator Bruno Ribeiro. Essa luz, inexistente nos espetáculos anteriores, cria uma sensação tão incomoda quanto a escuridão nos primeiros, perturbando a nossa visão e o nosso julgamento do personagem.
O que fica muito claro ao final de tudo é que os fatos são os fatos, independente da nossa visão. A luz é um recurso para iludir, para prender nossa atenção em um ponto e nos distrair do resto. A dramaturgia de Roberto Alvim tira de cena todos os elementos que possam nos limitar a uma conclusão pré-definida, dirigida. Sem ter onde nos agarrarmos, estamos livres para experenciar outras possibilidades. É como se assistíssemos de olhos fechados e as vozes dos atores viessem do nosso subconsciente. Não é o outro, nem sou eu. São outros eus.


ORESTÉIA II
texto Ésquilo
direção Roberto Alvim
sextas e sábados 21h00, domingos 20h00
Club Noir
Rua Augusta 331

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O Inferno É Um Shopping Com Lojas Fechadas


Sempre que o assunto é "a melhor peça que eu já vi", eu repito que nunca um espetáculo me deixou tão passado como O Livro de Jó, do Teatro da Vertigem, no fim dos anos 90. O texto bíblico carregado de referências contemporâneas na adaptação de Luis Alberto Abreu, encenado nas dependências de um hospital abandonado, com a direção ousada de Antônio Araújo e um elenco de talentos como Matheus Nachtergaele e Mariana Lima, compunham um espetáculo tão forte que, não raramente, algumas pessoas do público não conseguiam ir até o final.
Eu já era fã do grupo desde O Paraíso Perdido e continuei fã até o Apocalipse 1:11, ambos impactantes também. Mas desde o ano 2.000 que eu não via nada do Vertigem. A crise que se instalou sobre o grupo depois dos problemas com o espetáculo BR-3 (que eu não tive a sorte de ver), me deixaram com medo de abalar minhas lembranças daquela trilogia fantástica dos anos 90. Resolvi esperar por um novo grande espetáculo e, de uma certa forma, eu sabia que ele viria.
E veio. Quando assisti o espetáculo Bom Retiro 958 Metros, a sensação foi de que esse intervalo (meu) de 12 anos não existiu. O Vertigem mantém o seu dna e companhia contemporânea, com trabalhos ousados e grandiosos.


Caminhar pelas ruas escuras e vazias do Bom Retiro a noite já seria uma experiência e tanto. Mas o Vertigem abre as portas e liberta os fantasmas, vivos e mortos, de uma sociedade que justifica no consumo sua existência vazia. Dos faxineiros aos catadores de papelão, dos "nóias" aos estrangeiros ilegais em trabalho escravo nos porões da moda, todos os personagens de Bom Retiro 958 Metros são seres que nós não enchergamos no dia-a-dia, inclusive os fantasmas, pessoas que morreram e buscam no consumo uma maneira de continuarem vivas.
Sim, consumir é o que nos mantém vivos! Consumir é o que justifica a anulação do eu em prol de uma máquina produtiva que suga a nossa existência. E quanto mais vazios nos sentimos, mais necessitamos produzir e consumir. E quanto mais produzimos e consumimos, mais lixo geramos. E damos cada vez menos valor às coisas e às pessoas, sem perceber que nós também seremos descartados em algum momento.
Um dos momentos mais fortes de Bom Retiro 958 Metros é quando público e atores deixam as ruas e entram no abandonado Teatro TAIB. Colocados no velho palco em ruínas, assumimos a nossa verdadeira posição dentro do espetáculo.


O encenador Antonio Araújo encontra em Joca Reiners Terron um dramaturgo, enfim, à altura do que foi Luis Alberto Abreu nos primeiros espetáculos do Vertigem e, embora O Livro de Jó continue a ser a melhor peça que eu já vi, Bom Retiro 958 Metros é um espetáculo do qual eu sempre me lembrarei.

Bom Retiro 958 Metros
de Joca Reiners Terron
Direção: Antônio Araújo
Com: Luciana Schwinden, Mawusi Tulani, Roberto Audio e outros
Duração: 110 minutos
Até 16 de Dezembro
Oficina Cultural Oswald de Andrade - área externa
R. Três Rios, 363 - Bom Retiro - Centro
Telefone: 3255-2713.
Ingresso: R$ 30,00
Quinta a Sábado: 21h00
Domingo: 19h00

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Happycinio


Faz tempo que coleciono caveiras. Imagens de caveiras. Não sou metaleiro, não sou satanista e nem sou pirata, não sou fisioterapeuta e nem sou mexicano. Gosto muito de Alexander McQueen e Herchcovitch, é verdade, mas também não é essa a razão.
As caveiras para mim são o avesso de cultuação e da idolatria - do religioso ao culto ao corpo, dos astros do rock às tendências da moda. As caveiras representam a exposição do absurdo, o oposto da beleza, aquilo que ninguém quer ser mas é... por baixo de todas as máscaras. E entenda-se por máscaras tudo o que é moldável em função de um padrão imposto ou por necessidade de identificação com um meio. As caveiras contrariam a superficialidade e a profundidade, elas são apenas o definitivo, são o que fica de nós depois de tudo. As caveiras são o que de fato nos torna iguais.
Quando vi as fotos de divulgação do espetáculo Happycínio (quarta peça da Mostra de Dramaturgia Contemporânea do Club Noir), comentei no Facebook de Juliana Galdino, que assina a direção: "Essa peça tem a minha cara". E tem mesmo. A minha, a sua e a de todo mundo.


O personagem principal, maravilhosamente interpretado por Bruno Ribeiro, tem cara de caveira justamente para que nós, público, possamos assumir o lugar dele, posicionando nossas sensações no palco e não no confortável distanciamento de nossos acentos na platéia. Ótima sacada, Juliana!
O texto da jovem dramaturga Angélica Kauffmann é difícil, até mesmo dentro do padrão nada fácil dos textos encenados pela Cia Club Noir. Formado por uma tempestade de frases lugar comum, absurdamente banais, o texto não nos leva a lugar algum e cria uma sucessão quase atordoante de deslocamentos, com pancadas desestabilizadoras que vem de todas as direções possíveis.
É como andar naqueles carrinhos de batida, nos parques de diversões, sabe? Mesmo que você tente ficar quietinho em um canto da pista, vem um outro e se choca com você, jogando-o para o meio da confusão. É mais ou menos isso. E no final você deixa a pista meio atordoado, atravessado por um milhão de sensações mas sem uma história linear para contar.
Como a própria autora disse, o texto em si é só uma parte da obra. Ele só ganha vida no palco, pelas mãos de quem dirige e pelo trabalho dos atores. Então ela, Angélica, pode se considerar uma autora de sorte pois a direção de Juliana Galdino eleva a 5ª potência o poder impactante desse texto e o elenco do Noir mergulha de corpo e alma nesse trabalho tão contrário aos padrões do teatro, bem como ao nosso padrão de compreensão da vida e do mundo.
Happycinio mostra de forma imperdoavelmente irônica a obsessão por transformar nossa mediocridade em um show business catártico. O que é sugerido em palavras por Kauffmann toma forma nos ícones escolhidos por Juliana, como a televisão que comanda e alinhava as cenas e a caveira que despersonaliza o personagem central e nos reflete.
Aliás o título é genial, inventado por Angélica, acrescenta o sufixo cinio (ação) à palavra happy (feliz em inglês). Em Happycinio há a consciência da profundidade mas a superficialidade é a opção.


HAPPYCINIO

texto Angélica R. Kauffmann
direção Juliana Galdino

com Anapaula Csernik | José Renato Forner | Marcelo Rorato | Gabriela Ramos | Bruno Ribeiro
terças a quinta-feiras | 21h
club noir | augusta, 331 | 3255-8448 | 3257-8129
terças | quartas | quintas | 21h
entrada GRATUITA


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"Só No Amor Somos Iguais"


O novo livro de Fernanda Young, décimo primeiro de sua carreira como escritora, investiga a construção do mito amoroso sob uma ótica super contemporânea, a partir da personificação da noiva em todas as nuances possíveis do branco, do imaculável ao branco assassinado/homicida.

A Louca Debaixo do Branco mostra mulheres possíveis: amadas, sofridas, felizes, abandonadas, desapaixonadas... Foram dois anos de pesquisas, muitas anotações e idéias que transformaram a obra literária em uma (também) instalação na parceria com Diógenes Moura.

Fernanda Young se traveste de personagens que são variações dela mesma e de todas as mulheres. Ou melhor ainda, de todos os que amam. Segundo ela, "só no amor somos todos iguais" e "nós nos construímos para sermos amados, queremos oferecer a perfeição e encobrimos as feridas com camadas de tule". Portanto, você pode se identificar em qualquer uma dessas noivas, dependendo do seu momento.

Ela surge em vestidos belíssimos criados por feras como Rodrigo Rosner e Samuel Cirnansck, ou ainda despida de noiva (com um corpo de acabar com o casamento alheio). Existe o fetiche da noiva, o simbolismo da lua de mel, existe o desenrolar da história e a fatalidade (ou não) do fim.

O casamento de Fernanda Young é com sua arte. Com esse jeito profundo de tocar a superficialidade, de rir das pequenas (e das grandes) tragédias que compõem a nossa vida.

Os registros fotográficos são de Bob Wolfenson, Gustavo Zylbersztajn, Hidelbrando de Castro, Daniel Klajmic, Ludovic Carème e Paulo Vainer.

O registro em vídeo ficou por conta da top convidada Raquel Zimmerman e de Claudio Belizário. Os padrinhos musicais do grande evento são Paulo Miklos e Pitty.

Em exposição até 18 de novembro no MIS - Museu da Imagem e do Som, em São Paulo.
Terças e quartas, das 12 às 21h; quintas e sextas, das 12 às 20h; sábados, das 11 às 20hs; domingos e feriados, das 11 às 19h

Ingresso: R$ 4,00.


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Gente Fina É Muito Pior


Hoje fui ao teatro. Fui ver pela segunda vez o trabalho apaixonante de uma das mais importantes companhias deste país. Infelizmente acabei assistindo um espetáculo deplorável. A peça, claro, continua ótima mas a platéia...
A falta de educação e de respeito é uma evidência clara do grau de decadência da sociedade atual. Isso, somado à dependência física e psíquica que as pessoas desenvolveram nos últimos anos por seus aparelhos celulares, gera situações que ultrapassam o nível do desconforto para quem está por perto.
Durante os curtíssimos 45 minutos de duração do espetáculo, luzes se acendiam em vários pontos da platéia, com celulares recebendo ou enviando mensagens, em uma peça onde a escuridão é parte importante dentro do contexto das cenas. Resultado: os demais espectadores, irritados, não conseguiam se concentrar no espetáculo e muito menos os atores, como me contou mais tarde um dos integrantes do elenco.
Mas o ponto alto mesmo foi quando um senhor aparentemente distinto, visivelmente classe média alta (esses são os piores), acompanhado de sua esposa de cabelos falsamente loiros e cara botocada, atendeu o celular!!! Por mim a peça deveria ter parado ali, as luzes deveriam acender e todo mundo vaiar aquele imbecil. Talvez assim ele aprendesse.
Engraçado é que até os "manos" no metrô já sacaram que não é legal ouvir música no celular sem os headphones. Há tempos que eles andam com seus fonezinhos no ouvido, escutando sozinhos aqueles raps medonhos, sem incomodar os demais passageiros.
Mas nos teatros e cinemas, esse povinho que se sente acima dos demais mortais e impermeável às regras de convivência em sociedade, não conseguem desligar seus celulares.
Esse é o tipo de gente que não está nem aí com o resto da humanidade. É o tipo de gente que, com certeza, não separa o lixo reciclável, não respeita faixa de pedestre, mija na piscina, peida no elevador e palita os dentes na mesa do restaurante.
Como disse minha musa Funérea em uma de suas tirinhas: "Não tenho medo que os ETs invadam a Terra. Tenho vergonha."


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Brincando de Ser Deus


A vida imita a arte e a arte imita a vida. A arte como forma de re-pensar o mundo à nossa volta, ou dentro de nós mesmos, é o meio de expressão de nosso olhar e nossos sentimentos sobre tudo. Arte é reflexão e reflexo. Tenho um amigo que sempre diz, brincando, que tudo o que ele não entende é arte. E essa brincadeira disfarça uma grande verdade. No resumo da ópera, a arte busca compreender a vida.
A obra do artista e escultor holandês Theo Jansen cria novas formas de vida a partir do estudo das já existentes. Ao contrário dos animais, seus "Strandbeests" são gigantescos esqueletos dos mais variados materiais, movidos por forças externas apenas. Não possuem nenhuma espécie de animus, embora estejam inegavelmente vivos.


Em constante e acelerado processo de evolução, as mais recentes versões dos "Strandbeests" de Jansen são comandados por primitivos cérebros artificiais, baseados em contagem binária, e que se movimentam usando elementos da natureza, como o vento.
Tão fascinantes de se observar quanto os animais realmente vivos, as criaturas desse artista que se auto-entitula deus, mostram claramente nossa perplexidade e necessidade de compreensão sobre nossa própria existência. É a arte buscando respostas para aquilo que não entendemos.
E talvez nunca venhamos a entender mas, certamente, chegaremos bem perto.


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The Pillowman


Às vezes precisamos sair desse quadradinho que nós mesmos delimitamos e experimentar, vivenciar coisas novas. Ou simplesmente outras coisas.
Parece que a gente vai desenvolvendo aos poucos uma certa preguiça de escolher. Porque o processo de escolher é complicado mesmo, exige um certo trabalho e contém uma certa dose de risco que... Ah, dá uma preguiça de correr riscos também!
Moro a um ano a menos de 100 metros dos Parlapatões, um dos mais importantes teatros da cidade de São Paulo e sede da famosa companhia, homonima, que desde 1991 tem um lugar de destaque dentro da produção cultural paulistana. Mas me pergunte quantas vezes eu fui ao Parlapatões!
Milhares de vezes. No bar. O bar do Parlapa é o ponto de encontro da boêmia do Baixo Augusta/Praça Roosvelt. Gente de cinema, de teatro, da música, artistas plásticos, poetas, fotógrafos, escritores.... jornalistas, filósofos, vagabundos, intelectuais... gente bonita, gente interessante, excêntricos, loucos, pirados e até alguns caretas, todo mundo passa por lá em algum momento da noite. É um dos lugares icônicos de Sampa, sem dúvidas.
Mas nunca ter ido ao Parlapatões para assistir a uma peça é uma vergonha, uma falta imperdoável. Mesmo não sendo fã de comédias, a questão não é nem de linguagem mas sim da importância do espaço, do trabalho desenvolvido nos últimos 20 anos, sempre fiel a sua proposta.
E no domingo 30 de setembro, um dia após Kassab finalmente entregar (bem meia boca, mas entregou) a Praça Roosvelt de volta aos moradores região, após séculos amém de obras tão milhonárias quanto intermináveis... pensei que eu poderia duplicar a quantidade de milagres desse final de semana, indo assistir a uma peça no Parlapa. E fui!
Mas fui na segurança do conselho de uma amiga querida, a Fabiana Almeida, que disse que eu adoraria o espetáculo The Pillowman, um texto de humor negro de um (claro) irlandês Martin McDonagh e com direção de Bruno Guida e Dagoberto Feliz.
Não gosto de peças humorísticas mas amo humor negro. E The Pillowman é super engraçado justamente porque é um texto absolutamente sarcástico, quase ao ponto de sua origem em grego (sarkastikós), que é aquilo que dilacera a carne, metaforicamente.
The Pillowman é a relação de co-existência entre O Poder e A Impotência na constante troca de papéis dentro dessas 2 possibilidades, conforme o momento de nossas vidas. A partir do interrogatório de um escritor, indiciado pelas coincidências entre seus contos e uma série de crimes cometidos na cidade, o autor nos faz refletir sobre nosso prazer em julgar e o prazer em sermos subjugados, a medida que delegamos a outros tão parecidos conosco, o direito de nos julgar e nos castigar, expurgando nossos "pecados".
Tudo isso é colocado diante de nós como uma piada. Uma piada com lâminas muito afiadas, que nos dilacera a carne. E a gente ri muito. Um pouco é de nervoso, eu acho.
Muito boa a direção de Bruno Guida e Dagoberto Feliz, a peça é densa, tem um rítmo intenso e cheia de sacadas muito boas, além de soluções cênicas muito interessantes. Flávio Tolezani, perfeito no papel do escritor Katurian K. Katurian. Mas Daniel Infantini garante os melhores momentos do espetáculo como o investigador Tupolski.
Aí eu me senti duplamente bem. Fui prestigiar um dos templos do teatro paulistano e, como recompensa. Mas e A Praça Inacabada de Kassab, hem? Fala sério.


Gênero: Drama/Humor Negro
Texto: Martin McDonagh
Direção: Bruno Guida e Dagoberto Feliz
Com: Bruno Autran, Daniel Infantini, Flavio Tolezani e outros.
Tempo: 120 minutos (1 intervalo)
Espaço Parlapatões
Pça. Franklin Roosevelt, 158 - República - Centro. Telefone: 3258-4449.
Ingresso: R$ 30,00
Dias e Hora: Sábado 20h00 - Domingo 19h00
Curta Temporada - Até 21 de outubro de 2012

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Aqui... O Lugar da Morte


A morte é um lugar. O lugar.
Tudo morre, tudo se desfaz e tudo fica.
Misturado ao pó, transformado em pó...
Existindo no pó.
Tudo.
A pele, a carne, as unhas, o sangue.
As lembranças.
Tudo existe e persiste no pó.
Misturado.
Aqui. E para sempre.
Os sentimentos, os dentes, os gostos...
O cachorro que guarda a morte.
Enterra. Esconde.
Brinca e dorme sobre ela.
E mija sobre ela.

Eu morri em ti. Canta pra mim.

Aqui, o lugar depois da morte descrito por uma menina - Martina Sohn Fischer - em um texto onde a poesia abre valas para nos acomodar dizendo: "Aqui é seguro. Aqui nada machuca."
Aqui, o lugar da morte projetado por uma mulher - Juliana Galdino - em uma encenação onde muitas pás de areia são jogada sobre nós, nos impondo a imobilidade e a falta de ar até nos libertar da necessidade de movimentos, de respirar.

É bonito aqui.
Aqui nada machuca.

A peça "Aqui", em cartaz no Club Noir nos transporta para um lugar onde todos já sonhamos estar, mesmo que em pesadelos. E para onde todos vão. Todos nós iremos.

Fiel à estética característica da Cia Club Noir mas sem o radicalismo das recentes encenações de Roberto Alvim, a direção de Juliana Galdino usa de elementos cênicos, música e movimento para compor um espetáculo que surpreende a cada segundo.
Juliana e Roberto falam a mesma língua mas com sotaques distintos. Juliana e Roberto dialogam muito mas ambos mantem suas próprias identidades, enriquecidas pelo outro em uma relação protocooperativa.
A direção de Juliana é feminina, com detalhes que enriquecem, toca os sentimentos - mesmo que seja para machucar. Já a de Roberto é masculina, limpa de qualquer possibilidade de excesso, seca até o essencial do essencial.
"Aqui" é mais um texto perfeito para as mãos e o olhar de Juliana Galdino, que eleva à potência exata sua densidade/intensidade e nos conduz, desde a primeira palavra, por essa seara de terra preta com gosto de carne, esse lugar para onde vamos e não sabemos ao certo onde é.
Esse lugar é "Aqui".
A Juliana Galdino atriz - talvez a melhor do teatro contemporâneo brasileiro - quando se torna a Juliana Galdino diretora, se multiplica em seus atores, extraindo deles uma infinidade de texturas, imagens e sons. Como quando ela está em cena, os atores que se colocam sob sua direção são obrigados a ir muito além da construção de um personagem. Juliana faz abri-los, revirá-los por dentro, em uma dissecação curiosa da alma humana.
No elenco, formado em sua maioria por atores bem jovens, destaca-se a atuação de Gabriela Ramos, Fernando Gimenez e Bruno Ribeiro, responsáveis por alguns dos momentos mais arrebatadores do espetáculo. Momentos de catarse permitidos/provocados por Juliana. O feminino que nos permite, inclusive, a chorar.



Aqui,
de Martina Sohn Fischer
Direção de Juliana Galdino
Com: Paula Spinelli, Marcelo Rorato, Gabriela Ramos, Fernando Gimenez José,,, Renato Forner, Zé Geraldo Jr.
Projeto Mostra de Dramaturgia Contemporânea Brasileira
De 3ª a 5ª feira, às 21h00
Entrada Franca
Club Noir - Rua Augusta, 331 - São Paulo

ciaclubnoir.blogspot.com.br

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Prometeu, a antevisão de Roberto Alvim

"Aquilo que não me destrói, me fortalece."
Friedrich Nietzsche


O titã protetor da humanidade, aquele que roubou o fogo de Zeus e entregou aos mortais. Prometeu, acorrentado no topo um dos pilares do mundo, condenado a ser torturado por toda a eternidade, entregou-se à sua pena decidido a não dobrar-se diante da tirania dos deuses.
Dentro do cubo mágico criado por Roberto Alvim para encenar as tragédias de Ésquilo, Prometeu surge oculto por um manto negro com capuz, sem rosto. Ele não é humano. Está distante de nós tanto pelo fato de ser uma divindade quanto por estar acorrentado no alto de um rochedo. Tudo o que podemos ter dele é a voz - na maravilhosa interpretação de Juliana Galdino - através da qual sentimos não a dor da tortura nem a angústia do cativeiro, mas sim o fardo da eternidade e o sofrimento da traição enquanto traído/traidor.
O tenebrismo caravagiano das encenações de Roberto Alvim tomam uma outra dimensão em Prometeu, assinalando a passagem do tempo e a sobreposição das noites aos dias numa sequência de blackouts. Embora toda a iluminação seja uma única lâmpada fria no fundo do palco, a mesma das tragédias anteriores, neste espetáculo parece haver mais luz justamente por haver vários momentos de escuridão total.
Escuridão que nos remete à morte como fim de todos os martírios e certezas. Luz que renova todas as certezas e martírios.
O sofrimento, segundo Ésquilo, é o único caminho para chegar ao conhecimento mais elevado. Na encenação de Alvim a antevisão do sofrimento é o sofrimento maior. Principalmente quando ele é uma consequência inerente às nossas convicções.


Prometeu, de Ésquilo
4º espetáculo do projeto Peep Classics Ésquilo
Adaptação e direção de Roberto Alvim
Com Juliana Galdino, Ricardo Grasson, Marcelo Rorato, Paula Spinelli, Bruno Ribeiro e Jackeline Stefanski.
Sextas e Sábados às 21h00
Domingo às 20h00
Cia Club Noir
Rua Augusta, 331 - São Paulo

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Van Gogh, Por Ele Mesmo


A vida de Vincent Willem Van Gogh foi um monólogo.
Completamente sozinho ele viveu assombrado pelo fantasma do fracasso e ao mesmo tempo obstinado em pintar aquilo que, na época, ninguém via como arte.
Embora tenha vivido em Paris durante os primeiros anos do movimento Impressionista, Van Gogh não fez parte do grupo de Manet, Monet e Pissaro. Tivesse ele a oportunidade de conviver com esse grupo, talvez tivesse sofrido menos com a incompreensão e não seria tão angustiante sua busca por uma nova maneira de pintar.
Assim como Gaugin, com quem viveu uma relação pessoal e artística bastante tumultuada, Van Gogh é considerado pós impressionista, a ponte entre o Impressionismo e o Expressionismo.
De impressionista Van Gogh tinha o rompimento com os padrões vigentes de pintura, buscando na luz e no movimento a essência da arte, transmitida através de pinceladas soltas. Mas ele buscava ainda capturar as expressões da vida, a intenção atrás de um gesto, o sentimento inserido em uma paisagem ou tema.
A produção de Van Gogh era absurdamente intensa. Em apenas 8 anos como pintor produziu cerca de 800 telas sendo que, nos últimos anos de vida e talvez no auge de sua loucura, chegou a pintar 1 quandro por dia.
Ele cometeu o suicídio aos 37 anos e os últimos 17 anos de sua vida foram registrados em cartas escritas para o irmão Theo, que também foi seu mecenas. E são essas cartas que deram origem ao espetáculo escrito, dirigido e encenado pelo ator Alexandre Ferreira, em cartaz no Sesc Consolação.
Vincent Willem Van Gogh é um monólogo com texto vigoroso e uma encenação bastante simples, como foi a vida do próprio pintor. Projeções em um telão misturam o personagem a algumas de suas obras mais importantes, produzindo um efeito que se adéqua perfeitamente à proposta, apesar de não ser nenhuma novidade como recurso.
Alguns momentos no entanto mereciam soluções cênicas um pouco melhores. Como quando Van Gogh tem sua orelha decepada e, mais no final, quando ele aparece com a orelha milagrosamente recuperada.
Também achei estranhos os momentos em que Alexandre dá o texto com os dentes cerrados, dificultando a compreensão das palavras. Se a idéia era evidenciar os ápices de loucura do personagem... bem,não rolou. Não ficou legal.
Vincent Willem Van Gogh é um bom espetáculo, principalmente pelo texto que alinhava com precisão as cartas, transformando-as no que de fato eram, um monólogo, um auto-retrato de seu autor.

Vincent Willen Van Gogh
texto, direção e interpretação de Alexandre Ferreria
Segundas e Terças-feiras às 21 horas
Sesc Consolação - Espaço Beta
Rua Dr.Vila Nova, 245 - São Paulo
Ingresso: R$ 10,00

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Arte em São Paulo: Momento Único

Viver em uma megalópole como São Paulo tem lá suas vantagens. Para mim é a vida cultural, a efervescência de idéias e, principalmente, os grandes eventos que só são possíveis em locais onde a demanda de público interessado justifica os dispendiosos investimentos necessários para realizá-los.
Em quantas outras cidades do mundo seria viável uma grande exposição sobre Caravaggio, ou sobre o Impressionismo, ou ainda sobre um dos maiores artistas plásticos contemporâneos?
Pior ainda, em quantas cidades do mundo seria viável o acontecimento simultâneo dessas 3 exposições?
Pois é exatamente isso que acontece em São Paulo neste momento: O venezuelano Cruz Diez, um dos papas da arte contemporânea, na Pinacoteca; Os mestres do Impressionismo no Centro Cultural Banco do Brasil; e a genialidade barroca de Caravaggio e seus seguidores no MASP. 3 grandes exposições e 3 momentos de grande importância na história da arte.
E as filas para ver essas exposições correspondem à grandiosidade das mesmas. Só para ver 2 vezes a magnífica "Impressionismo: Paris e a Modernidade – Obras-Primas do Museu d’Orsay", no CCBB, eu já gastei feliz umas 5 horas de fila. E devo acrescentar ainda mais umas 2 ou 3 horas para ver pela terceira vez as telas de Manet, Pissaro, Monet, Degas, Toulosse-Lautrec, Renoir, Cézanne, Van Gogh, Gaugin, Vuillard, Morisot e Bonnat, entre outros. São 85 obras que contam detalhadamente a história do movimento Impressionista, que startou todo o conceito de modernidade nas artes do século XX.
Bem menor em quantidade de obras mas nem por isso menos importante, a exposição "Caravaggio e Seus Seguidores", no MASP, também tem rendido boas horas de fila. E todo mundo encara essa fila feliz, afinal de contas é a maior mostra já realizada no continente americano sobre o mestre barroco, com várias obras que pela primeira vez sairam da Itália.
Mas filas para ver nomes sagrados da pintura não me surpreenderam tanto quanto a fila para ver a belíssima retrospectiva sobre a obra do venezuelano Cruz Diez, na Pinacoteca do Estado. Considerado um dos mais importantes artistas contemporâneos do mundo, Diez não é exatamente um nome conhecido pelo grande público mas, mesmo assim, a exposição tem atraído milhares de pessoas. E é uma delícia observar as reações e a interação do público com as obras, correspondendo 100% às expectativas do artista.
Não é que eu adore filas. No dia-a-dia fujo delas como o diabo foge da cruz. Mas uma coisa é pegar uma fila no banco - geralmente para ser mal atendido - e outra muito diferente é uma fila para ver um filme, uma peça de teatro ou uma bela exposição. A grande diferença é que a gente sabe que, por mais demorada e sofrida que seja a espera, a recompensa no final fará tudo valer a pena.
E o que me deixa mais feliz ainda é ver tantas pessoas interessadas, famintas por arte. E olha que o cardápio aqui em São Paulo é bem generoso. Mas acho que cultura é assim mesmo, vicia! Quanto mais a gente tem, mais a gente quer.

"Caravaggio e Seus Seguidores", no MASP (Museu de Arte de São Paulo)até 30 de setembro. Ao todo são 7 obras de Caravaggio e mais 15 de outros artistas, conhecidos como "caravaggescos", entre eles: Artemisia Gentileschi, Hendrick van Somer e Orazio Riminaldi. Ingresso R$ 15,00 ou grátis às terças-feiras.

"Impressionismo: Paris e a Modernidade – Obras-Primas do Museu d’Orsay", no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo), até o dia 07 de outubro, reúne 85 obras que contam toda a história do Impressionismo. Entrada grátis.

"Cruz-Diez: A Cor no Espaço e no Tempo", até dia 16 de setembro na Pinacoteca do Estado, retrospectiva com 150 obras desse artistia venezuelano radicado em Paris, reconhecido como um dos mais importantes nomes da arte contemporãnea. Ingresso: R$ 6,00.




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A Dramaturgia Contemporânea no Club Noir

Uma imagem pode dizer mais do que mil palavras. E quando uma imagem se desdobra em mil outras, os significados são potencializados ao infinito.

3 telas em Branco e 3 pinceladas nas cores primárias. Cada qual contando uma história. Um assassinato, uma obra de arte, o fim de um relacionamento. E a medida que as cores se misturam, dando origem a novas cores, outras histórias vão surgindo.


Os personagens desenhados pela autora Patricia Kami na peça (Em) Branco narram situações corriqueiras, banais, mas que não podem absolutamente passar... em branco. E o diretor Roberto Alvim inspira-se nas pinturas de Roy Lichtenstein para compor esse espetáculo - segundo de uma série de uma série de 8 - dentro da Mostra Brasileira de Dramaturgia Contemporânea da Cia. Club Noir.
No primeiro espetáculo da Mostra, o brilhante Hieronymus Nas Masmorras de Luiz Felipe Leprevost, a referência era Bosch. Assim como nas obras do pintor holandês, Hieronymus trazia figuras complexas e caricaturais habitando um mundo surreal, onde a violência e deformação de valores davam origem a outros seres.


As artes plásticas sempre são uma presença forte nos trabalhos de Alvim. Suprimindo o movimento e baseando seus espetáculos a algumas – ou apenas uma - cenas de impacto, ele nos apresenta o teatro de uma outra/nova maneira. Como diante de um quadro, somos convidados à entrar na obra para senti-la, vivenciá-la. Co-habitá-la.
Isso fica muito evidente no espetáculo (Em) Branco. Os 3 atores ficam em cena por 30 minutos sem mexer um músculo que não os da face. Todo o movimento da peça vem da nossa percepção. Como diante de uma obra de arte óptica, na medida em que nossos olhos seguem o texto de um personagem para outro, o movimento surge como uma ilusão.
Há que se destacar também o trabalho dos atores da Cia Club Noir nessa Mostra Brasileira de Dramaturgia Contemporânea. Se em Hieronymus Nas Masmorras tivemos todo o talento e experiência dos mais antigos membros da companhia (Juliana Galdino, Ricardo Grasson e José Renato Forner), no espetáculo (Em) Branco o trabalho de Frann Ferraretto, Fernando Gimenez e José Geraldo Junior se destaca pelo grau de dificuldade - quase torturante – de passar meia hora sem se mexer e com dois focos de luz a poucos centímetros de seus olhos.

A Mostra Brasileira de Dramaturgia Contemporânea da Cia. Club Noir coloca em cena textos de 8 jovens dramaturgos, todos propondo novos olhares para a literatura e para o teatro. Cada espetáculo fica 1 mês em cartaz, sempre de terça a quinta-feira às 21 horas, com entrada gratuita.

Fotos: Julieta Bachin

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Weekend, o filme.



Weekend é, antes de mais nada, uma história de amor.
Uma história de amor contemporânea. Com toda a insegurança e o medo de se arriscar quando o assunto é o amor.
Não é medo de amar. É medo de perder, de sofrer com a perda. E, acima de tudo, medo de perder o controle de uma situação.
A nossa geração prefere renunciar a perder. Talvez a dor opcional seja mais suportável que a imposta por outro. Na dor escolhida sofre-se pelo incerto, na dor imposta sofre-se por uma perda real. E em tempos onde o "para sempre" é cada vez mais raro, a perda real é praticamente uma certeza.
Weekend, a princípio, é um filme sem nada de muito especial mas tornou-se cult instantaneamente, tamanha a identificação do público com essa história de amor tão comum.
Afinal de contas, quem nunca passou por alguma coisa parecida? Conhecer alguém numa balada, ir para cama com essa pessoa e descobrir que, talvez, essa pessoa seja o tão sonhado grande amor de sua vida... Normalmente a gente aborta a história logo na manhã seguinte. Mas em Weekend os personagens esticam o romance por todo o final de semana e se revelam em diálogos que são o ponto alto do filme.
Carregadas de uma realidade comum à grande maioria das pessoas, as falas de Russel e Glen mostram um universo de angústias, de solidão, de carências... Um texto honesto, sem falsos moralismos, sem etiquetas sociais e sem as máscaras da hipocrisia. Os sentimentos vem à tona de uma forma muito natural e é impossível não se identificar com os personagens em vários momentos.
Aclamado no Festival SXSW em Austin (Texas), o filme dirigido por Andrew Haigh foi hypado pelo fotógrafo/cineasta Bruce Weber, ganhou destaque nas principais revistas e jornais de todo o mundo e teve o melhor marketing que um filme pode ter, o boca a boca, feito por todos que assistiram.
Lançado em 2011 o filme tinha tudo para não chegar ao circuito comercial no Brasil. Inclusive porque se trata de uma história de amor entre 2 homens. Sim, Russel e Glen são os personagens interpretados respectivamente por Tom Cullen e Chris New, ambos brilhantes.



Mas o fato de ser uma história de amor gay não limita Weekend às salas de cinemas alternativas. Isso é só um detalhe, embora o diretor, em entrevista ao The Guardian, tenha declarado uma intenção mais engajada com a causa gay na realização deste projeto.
Mas o fato é que Weekend é uma história comum a milhares de homens e mulheres, independente da sexualidade. É um filme que fala de sentimentos e de pessoas como eu, como você e como muitas pessoas que a gente conhece.




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ΙΚΕΤΙΔΕΣ - HIKETIDES - AS SUPLICANTES

Demora um certo tempo para se apreciar um estranho.

O negro é a ausência de luz.
O branco é a ausência de tudo, o vazio, o nada.
O branco é o espaço a ser ocupado. Ou não.
O negro é a sombra de onde tudo pode surgir, onde alguma coisa pode acontecer. Ou não.
Quando o abstracionista russo Kazimir Malevich, em estado de total perturbação, pintou "Quadrado Negro Sobre Fundo Branco", buscava exatamente a liberdade de pensar, rompendo com todas as referências e rompendo radicalmente com todas as formas de representação.
"Quadrado Negro Sobre Fundo Branco" aparece na abertura do programa Peep Classics Ésquilo, projeto da Cia Club Noir e traduz com exatidão o trabalho de seu diretor Roberto Alvim e a proposta da própria companhia.
O projeto Peep Classics Ésquilo traz a obra completa do pai da tragédia em 6 espetáculos, estreando mês a mês,começando por As Suplicantes.
Um cubo vazado e uma lâmpada fria, 5 atores em cena praticamente imóveis e fragmentos do texto de Ésquilo. As suplicantes é o trabalho mais radical do diretor Roberto Alvim, dentro de sua proposta do Teatro do Transumano, rompendo com todos os padrões do velho teatro e transcendendo as limitações do homem - seja ele autor, ator ou público - e as limitações da própria obra.

Criando pontos de interrogação que flutuam sem perguntas e sem respostas, Alvim vai além dos sentidos e do significado, instalando um momento de caos sombrio de onde possam surgir novas idéias, um novo teatro.
Sim, o trabalho de Roberto Alvim é estranho, principalmente para nós, público leigo, acostumados a ver o trabalho de pessoas que fazem teatro e raramente temos acesso aos que pensam o teatro. É estranho, muito estranho, mas é absolutamente poético.
Escrita por volta de 463 a.C., As Suplicantes é a única peça que sobreviveu de uma tetralogia (As Suplicantes / Os Egípcios / As Danaides e o texto satírico Amimone). O nome em grego, Hikétides, significa ao mesmo tempo “recém-chegadas” e “suplicantes”.
O texto original narra a história das 50 filhas de Dânao, fugindo de um casamento arranjado com seus primos, os 50 filhos de Egito. Elas chegam a Argos buscando asilo político e religioso, declarando-se descendentes da antiga princesa de Argos. Apatridas e perseguidas, as recém-chegadas suplicantes causam estranheza ao povo argivo, que demora um pouco a acolhe-las.
Na adaptação de Alvim, pouco se vê do texto original mas há uma potencialização da essência, da força por trás da intenção das palavras. Inclusive as suprimidas.
Colocar os mais antigos textos dramáticos de que se tem notícia em uma proposta tão vanguardista, funde os dois extremos da timeline, fechando o quadrado e criando esse espaço de sombra ao qual Roberto Alvim, assim como Malevich em sua obra, se refere como "um furo no real", o avesso de um buraco negro que pode trazer à
tona a possibilidade de uma "novaoutra (est)ética".
A transmissão de inconscientes.

Demora um certo tempo para se apreciar um estranho.



As Suplicantes, de Ésquilo
1º espetáculo do projeto Peep Classics Ésquilo
Adaptação e direção de Roberto Alvim
Com: Paula Spinelli, Jackeline Stefanski, Ricardo Grasson, José Geraldo Jr. e Renato Forner
De 08/06 a 01/07
Cia Club Noir
Sextas e sábados às 21h00
Domingos às 20h00
Rua Augusta, 331 - São Paulo
Ingressos a R$20 e R$10

Fotos de Julieta Bacchin

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