Weekend, o filme.



Weekend é, antes de mais nada, uma história de amor.
Uma história de amor contemporânea. Com toda a insegurança e o medo de se arriscar quando o assunto é o amor.
Não é medo de amar. É medo de perder, de sofrer com a perda. E, acima de tudo, medo de perder o controle de uma situação.
A nossa geração prefere renunciar a perder. Talvez a dor opcional seja mais suportável que a imposta por outro. Na dor escolhida sofre-se pelo incerto, na dor imposta sofre-se por uma perda real. E em tempos onde o "para sempre" é cada vez mais raro, a perda real é praticamente uma certeza.
Weekend, a princípio, é um filme sem nada de muito especial mas tornou-se cult instantaneamente, tamanha a identificação do público com essa história de amor tão comum.
Afinal de contas, quem nunca passou por alguma coisa parecida? Conhecer alguém numa balada, ir para cama com essa pessoa e descobrir que, talvez, essa pessoa seja o tão sonhado grande amor de sua vida... Normalmente a gente aborta a história logo na manhã seguinte. Mas em Weekend os personagens esticam o romance por todo o final de semana e se revelam em diálogos que são o ponto alto do filme.
Carregadas de uma realidade comum à grande maioria das pessoas, as falas de Russel e Glen mostram um universo de angústias, de solidão, de carências... Um texto honesto, sem falsos moralismos, sem etiquetas sociais e sem as máscaras da hipocrisia. Os sentimentos vem à tona de uma forma muito natural e é impossível não se identificar com os personagens em vários momentos.
Aclamado no Festival SXSW em Austin (Texas), o filme dirigido por Andrew Haigh foi hypado pelo fotógrafo/cineasta Bruce Weber, ganhou destaque nas principais revistas e jornais de todo o mundo e teve o melhor marketing que um filme pode ter, o boca a boca, feito por todos que assistiram.
Lançado em 2011 o filme tinha tudo para não chegar ao circuito comercial no Brasil. Inclusive porque se trata de uma história de amor entre 2 homens. Sim, Russel e Glen são os personagens interpretados respectivamente por Tom Cullen e Chris New, ambos brilhantes.



Mas o fato de ser uma história de amor gay não limita Weekend às salas de cinemas alternativas. Isso é só um detalhe, embora o diretor, em entrevista ao The Guardian, tenha declarado uma intenção mais engajada com a causa gay na realização deste projeto.
Mas o fato é que Weekend é uma história comum a milhares de homens e mulheres, independente da sexualidade. É um filme que fala de sentimentos e de pessoas como eu, como você e como muitas pessoas que a gente conhece.




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ΙΚΕΤΙΔΕΣ - HIKETIDES - AS SUPLICANTES

Demora um certo tempo para se apreciar um estranho.

O negro é a ausência de luz.
O branco é a ausência de tudo, o vazio, o nada.
O branco é o espaço a ser ocupado. Ou não.
O negro é a sombra de onde tudo pode surgir, onde alguma coisa pode acontecer. Ou não.
Quando o abstracionista russo Kazimir Malevich, em estado de total perturbação, pintou "Quadrado Negro Sobre Fundo Branco", buscava exatamente a liberdade de pensar, rompendo com todas as referências e rompendo radicalmente com todas as formas de representação.
"Quadrado Negro Sobre Fundo Branco" aparece na abertura do programa Peep Classics Ésquilo, projeto da Cia Club Noir e traduz com exatidão o trabalho de seu diretor Roberto Alvim e a proposta da própria companhia.
O projeto Peep Classics Ésquilo traz a obra completa do pai da tragédia em 6 espetáculos, estreando mês a mês,começando por As Suplicantes.
Um cubo vazado e uma lâmpada fria, 5 atores em cena praticamente imóveis e fragmentos do texto de Ésquilo. As suplicantes é o trabalho mais radical do diretor Roberto Alvim, dentro de sua proposta do Teatro do Transumano, rompendo com todos os padrões do velho teatro e transcendendo as limitações do homem - seja ele autor, ator ou público - e as limitações da própria obra.

Criando pontos de interrogação que flutuam sem perguntas e sem respostas, Alvim vai além dos sentidos e do significado, instalando um momento de caos sombrio de onde possam surgir novas idéias, um novo teatro.
Sim, o trabalho de Roberto Alvim é estranho, principalmente para nós, público leigo, acostumados a ver o trabalho de pessoas que fazem teatro e raramente temos acesso aos que pensam o teatro. É estranho, muito estranho, mas é absolutamente poético.
Escrita por volta de 463 a.C., As Suplicantes é a única peça que sobreviveu de uma tetralogia (As Suplicantes / Os Egípcios / As Danaides e o texto satírico Amimone). O nome em grego, Hikétides, significa ao mesmo tempo “recém-chegadas” e “suplicantes”.
O texto original narra a história das 50 filhas de Dânao, fugindo de um casamento arranjado com seus primos, os 50 filhos de Egito. Elas chegam a Argos buscando asilo político e religioso, declarando-se descendentes da antiga princesa de Argos. Apatridas e perseguidas, as recém-chegadas suplicantes causam estranheza ao povo argivo, que demora um pouco a acolhe-las.
Na adaptação de Alvim, pouco se vê do texto original mas há uma potencialização da essência, da força por trás da intenção das palavras. Inclusive as suprimidas.
Colocar os mais antigos textos dramáticos de que se tem notícia em uma proposta tão vanguardista, funde os dois extremos da timeline, fechando o quadrado e criando esse espaço de sombra ao qual Roberto Alvim, assim como Malevich em sua obra, se refere como "um furo no real", o avesso de um buraco negro que pode trazer à
tona a possibilidade de uma "novaoutra (est)ética".
A transmissão de inconscientes.

Demora um certo tempo para se apreciar um estranho.



As Suplicantes, de Ésquilo
1º espetáculo do projeto Peep Classics Ésquilo
Adaptação e direção de Roberto Alvim
Com: Paula Spinelli, Jackeline Stefanski, Ricardo Grasson, José Geraldo Jr. e Renato Forner
De 08/06 a 01/07
Cia Club Noir
Sextas e sábados às 21h00
Domingos às 20h00
Rua Augusta, 331 - São Paulo
Ingressos a R$20 e R$10

Fotos de Julieta Bacchin

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Menos Emergências

Juliana Galdino assina a direção do espetáculo Menos Emergências, de Martin Crimp, em curtíssima temporada, dentro da programação do 16º Festival de Teatro da Cultura Inglesa. Considerado um dos mais brilhantes escritores britânicos surgidos nas últimas 3 décadas, Crimp, assim como o americano Thomas Pynchon, faz parte do time de escritores contemporâneos que vivem reclusos e partilham uma visão ácida e pessimista do momento que vivemos. Menos Emergências é uma de suas publicações mais recentes (2005) e também um dos poucos trabalhos dele conhecidos no Brasil. Menos Emergências é um tríptico. Três histórias que se conectam e se completam: Uma mulher lidando com o fracasso do casamento, um massacre de criancinhas em uma escola e um casal que cria o filho trancado em um quarto para protegê-lo da violência. Personagens esquisofrênicos em um universo de desolação e desespero, cobertos por uma máscara de otimismo falso e doentio, negando a realidade. Um texto sob medida para a força dramática de Juliana Galdino e para a estética do Club Noir, companhia que a diretora e atriz fundou com o marido, o diretor Roberto Alvim, criando um conceito de dramaturgia que coloca em xeque os conceitos básicos do teatro. (Con)centrada no texto, a encenação de Juliana Galdino para Menos Urgências, exige dos atores um trabalho muito além da interpretação. Trabalhando a ausência de excessos, a diretora coloca em cena todo o cinismo e acidez de Crimp. Um trabalho denso, tenso, perverso. Em cena: Donizeti Mazonas, Lianna Matheus e o desempenho brilhante de Susan Damasceno.

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