O Inferno É Um Shopping Com Lojas Fechadas


Sempre que o assunto é "a melhor peça que eu já vi", eu repito que nunca um espetáculo me deixou tão passado como O Livro de Jó, do Teatro da Vertigem, no fim dos anos 90. O texto bíblico carregado de referências contemporâneas na adaptação de Luis Alberto Abreu, encenado nas dependências de um hospital abandonado, com a direção ousada de Antônio Araújo e um elenco de talentos como Matheus Nachtergaele e Mariana Lima, compunham um espetáculo tão forte que, não raramente, algumas pessoas do público não conseguiam ir até o final.
Eu já era fã do grupo desde O Paraíso Perdido e continuei fã até o Apocalipse 1:11, ambos impactantes também. Mas desde o ano 2.000 que eu não via nada do Vertigem. A crise que se instalou sobre o grupo depois dos problemas com o espetáculo BR-3 (que eu não tive a sorte de ver), me deixaram com medo de abalar minhas lembranças daquela trilogia fantástica dos anos 90. Resolvi esperar por um novo grande espetáculo e, de uma certa forma, eu sabia que ele viria.
E veio. Quando assisti o espetáculo Bom Retiro 958 Metros, a sensação foi de que esse intervalo (meu) de 12 anos não existiu. O Vertigem mantém o seu dna e companhia contemporânea, com trabalhos ousados e grandiosos.


Caminhar pelas ruas escuras e vazias do Bom Retiro a noite já seria uma experiência e tanto. Mas o Vertigem abre as portas e liberta os fantasmas, vivos e mortos, de uma sociedade que justifica no consumo sua existência vazia. Dos faxineiros aos catadores de papelão, dos "nóias" aos estrangeiros ilegais em trabalho escravo nos porões da moda, todos os personagens de Bom Retiro 958 Metros são seres que nós não enchergamos no dia-a-dia, inclusive os fantasmas, pessoas que morreram e buscam no consumo uma maneira de continuarem vivas.
Sim, consumir é o que nos mantém vivos! Consumir é o que justifica a anulação do eu em prol de uma máquina produtiva que suga a nossa existência. E quanto mais vazios nos sentimos, mais necessitamos produzir e consumir. E quanto mais produzimos e consumimos, mais lixo geramos. E damos cada vez menos valor às coisas e às pessoas, sem perceber que nós também seremos descartados em algum momento.
Um dos momentos mais fortes de Bom Retiro 958 Metros é quando público e atores deixam as ruas e entram no abandonado Teatro TAIB. Colocados no velho palco em ruínas, assumimos a nossa verdadeira posição dentro do espetáculo.


O encenador Antonio Araújo encontra em Joca Reiners Terron um dramaturgo, enfim, à altura do que foi Luis Alberto Abreu nos primeiros espetáculos do Vertigem e, embora O Livro de Jó continue a ser a melhor peça que eu já vi, Bom Retiro 958 Metros é um espetáculo do qual eu sempre me lembrarei.

Bom Retiro 958 Metros
de Joca Reiners Terron
Direção: Antônio Araújo
Com: Luciana Schwinden, Mawusi Tulani, Roberto Audio e outros
Duração: 110 minutos
Até 16 de Dezembro
Oficina Cultural Oswald de Andrade - área externa
R. Três Rios, 363 - Bom Retiro - Centro
Telefone: 3255-2713.
Ingresso: R$ 30,00
Quinta a Sábado: 21h00
Domingo: 19h00

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Happycinio


Faz tempo que coleciono caveiras. Imagens de caveiras. Não sou metaleiro, não sou satanista e nem sou pirata, não sou fisioterapeuta e nem sou mexicano. Gosto muito de Alexander McQueen e Herchcovitch, é verdade, mas também não é essa a razão.
As caveiras para mim são o avesso de cultuação e da idolatria - do religioso ao culto ao corpo, dos astros do rock às tendências da moda. As caveiras representam a exposição do absurdo, o oposto da beleza, aquilo que ninguém quer ser mas é... por baixo de todas as máscaras. E entenda-se por máscaras tudo o que é moldável em função de um padrão imposto ou por necessidade de identificação com um meio. As caveiras contrariam a superficialidade e a profundidade, elas são apenas o definitivo, são o que fica de nós depois de tudo. As caveiras são o que de fato nos torna iguais.
Quando vi as fotos de divulgação do espetáculo Happycínio (quarta peça da Mostra de Dramaturgia Contemporânea do Club Noir), comentei no Facebook de Juliana Galdino, que assina a direção: "Essa peça tem a minha cara". E tem mesmo. A minha, a sua e a de todo mundo.


O personagem principal, maravilhosamente interpretado por Bruno Ribeiro, tem cara de caveira justamente para que nós, público, possamos assumir o lugar dele, posicionando nossas sensações no palco e não no confortável distanciamento de nossos acentos na platéia. Ótima sacada, Juliana!
O texto da jovem dramaturga Angélica Kauffmann é difícil, até mesmo dentro do padrão nada fácil dos textos encenados pela Cia Club Noir. Formado por uma tempestade de frases lugar comum, absurdamente banais, o texto não nos leva a lugar algum e cria uma sucessão quase atordoante de deslocamentos, com pancadas desestabilizadoras que vem de todas as direções possíveis.
É como andar naqueles carrinhos de batida, nos parques de diversões, sabe? Mesmo que você tente ficar quietinho em um canto da pista, vem um outro e se choca com você, jogando-o para o meio da confusão. É mais ou menos isso. E no final você deixa a pista meio atordoado, atravessado por um milhão de sensações mas sem uma história linear para contar.
Como a própria autora disse, o texto em si é só uma parte da obra. Ele só ganha vida no palco, pelas mãos de quem dirige e pelo trabalho dos atores. Então ela, Angélica, pode se considerar uma autora de sorte pois a direção de Juliana Galdino eleva a 5ª potência o poder impactante desse texto e o elenco do Noir mergulha de corpo e alma nesse trabalho tão contrário aos padrões do teatro, bem como ao nosso padrão de compreensão da vida e do mundo.
Happycinio mostra de forma imperdoavelmente irônica a obsessão por transformar nossa mediocridade em um show business catártico. O que é sugerido em palavras por Kauffmann toma forma nos ícones escolhidos por Juliana, como a televisão que comanda e alinhava as cenas e a caveira que despersonaliza o personagem central e nos reflete.
Aliás o título é genial, inventado por Angélica, acrescenta o sufixo cinio (ação) à palavra happy (feliz em inglês). Em Happycinio há a consciência da profundidade mas a superficialidade é a opção.


HAPPYCINIO

texto Angélica R. Kauffmann
direção Juliana Galdino

com Anapaula Csernik | José Renato Forner | Marcelo Rorato | Gabriela Ramos | Bruno Ribeiro
terças a quinta-feiras | 21h
club noir | augusta, 331 | 3255-8448 | 3257-8129
terças | quartas | quintas | 21h
entrada GRATUITA


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"Só No Amor Somos Iguais"


O novo livro de Fernanda Young, décimo primeiro de sua carreira como escritora, investiga a construção do mito amoroso sob uma ótica super contemporânea, a partir da personificação da noiva em todas as nuances possíveis do branco, do imaculável ao branco assassinado/homicida.

A Louca Debaixo do Branco mostra mulheres possíveis: amadas, sofridas, felizes, abandonadas, desapaixonadas... Foram dois anos de pesquisas, muitas anotações e idéias que transformaram a obra literária em uma (também) instalação na parceria com Diógenes Moura.

Fernanda Young se traveste de personagens que são variações dela mesma e de todas as mulheres. Ou melhor ainda, de todos os que amam. Segundo ela, "só no amor somos todos iguais" e "nós nos construímos para sermos amados, queremos oferecer a perfeição e encobrimos as feridas com camadas de tule". Portanto, você pode se identificar em qualquer uma dessas noivas, dependendo do seu momento.

Ela surge em vestidos belíssimos criados por feras como Rodrigo Rosner e Samuel Cirnansck, ou ainda despida de noiva (com um corpo de acabar com o casamento alheio). Existe o fetiche da noiva, o simbolismo da lua de mel, existe o desenrolar da história e a fatalidade (ou não) do fim.

O casamento de Fernanda Young é com sua arte. Com esse jeito profundo de tocar a superficialidade, de rir das pequenas (e das grandes) tragédias que compõem a nossa vida.

Os registros fotográficos são de Bob Wolfenson, Gustavo Zylbersztajn, Hidelbrando de Castro, Daniel Klajmic, Ludovic Carème e Paulo Vainer.

O registro em vídeo ficou por conta da top convidada Raquel Zimmerman e de Claudio Belizário. Os padrinhos musicais do grande evento são Paulo Miklos e Pitty.

Em exposição até 18 de novembro no MIS - Museu da Imagem e do Som, em São Paulo.
Terças e quartas, das 12 às 21h; quintas e sextas, das 12 às 20h; sábados, das 11 às 20hs; domingos e feriados, das 11 às 19h

Ingresso: R$ 4,00.


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Gente Fina É Muito Pior


Hoje fui ao teatro. Fui ver pela segunda vez o trabalho apaixonante de uma das mais importantes companhias deste país. Infelizmente acabei assistindo um espetáculo deplorável. A peça, claro, continua ótima mas a platéia...
A falta de educação e de respeito é uma evidência clara do grau de decadência da sociedade atual. Isso, somado à dependência física e psíquica que as pessoas desenvolveram nos últimos anos por seus aparelhos celulares, gera situações que ultrapassam o nível do desconforto para quem está por perto.
Durante os curtíssimos 45 minutos de duração do espetáculo, luzes se acendiam em vários pontos da platéia, com celulares recebendo ou enviando mensagens, em uma peça onde a escuridão é parte importante dentro do contexto das cenas. Resultado: os demais espectadores, irritados, não conseguiam se concentrar no espetáculo e muito menos os atores, como me contou mais tarde um dos integrantes do elenco.
Mas o ponto alto mesmo foi quando um senhor aparentemente distinto, visivelmente classe média alta (esses são os piores), acompanhado de sua esposa de cabelos falsamente loiros e cara botocada, atendeu o celular!!! Por mim a peça deveria ter parado ali, as luzes deveriam acender e todo mundo vaiar aquele imbecil. Talvez assim ele aprendesse.
Engraçado é que até os "manos" no metrô já sacaram que não é legal ouvir música no celular sem os headphones. Há tempos que eles andam com seus fonezinhos no ouvido, escutando sozinhos aqueles raps medonhos, sem incomodar os demais passageiros.
Mas nos teatros e cinemas, esse povinho que se sente acima dos demais mortais e impermeável às regras de convivência em sociedade, não conseguem desligar seus celulares.
Esse é o tipo de gente que não está nem aí com o resto da humanidade. É o tipo de gente que, com certeza, não separa o lixo reciclável, não respeita faixa de pedestre, mija na piscina, peida no elevador e palita os dentes na mesa do restaurante.
Como disse minha musa Funérea em uma de suas tirinhas: "Não tenho medo que os ETs invadam a Terra. Tenho vergonha."


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Brincando de Ser Deus


A vida imita a arte e a arte imita a vida. A arte como forma de re-pensar o mundo à nossa volta, ou dentro de nós mesmos, é o meio de expressão de nosso olhar e nossos sentimentos sobre tudo. Arte é reflexão e reflexo. Tenho um amigo que sempre diz, brincando, que tudo o que ele não entende é arte. E essa brincadeira disfarça uma grande verdade. No resumo da ópera, a arte busca compreender a vida.
A obra do artista e escultor holandês Theo Jansen cria novas formas de vida a partir do estudo das já existentes. Ao contrário dos animais, seus "Strandbeests" são gigantescos esqueletos dos mais variados materiais, movidos por forças externas apenas. Não possuem nenhuma espécie de animus, embora estejam inegavelmente vivos.


Em constante e acelerado processo de evolução, as mais recentes versões dos "Strandbeests" de Jansen são comandados por primitivos cérebros artificiais, baseados em contagem binária, e que se movimentam usando elementos da natureza, como o vento.
Tão fascinantes de se observar quanto os animais realmente vivos, as criaturas desse artista que se auto-entitula deus, mostram claramente nossa perplexidade e necessidade de compreensão sobre nossa própria existência. É a arte buscando respostas para aquilo que não entendemos.
E talvez nunca venhamos a entender mas, certamente, chegaremos bem perto.


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The Pillowman


Às vezes precisamos sair desse quadradinho que nós mesmos delimitamos e experimentar, vivenciar coisas novas. Ou simplesmente outras coisas.
Parece que a gente vai desenvolvendo aos poucos uma certa preguiça de escolher. Porque o processo de escolher é complicado mesmo, exige um certo trabalho e contém uma certa dose de risco que... Ah, dá uma preguiça de correr riscos também!
Moro a um ano a menos de 100 metros dos Parlapatões, um dos mais importantes teatros da cidade de São Paulo e sede da famosa companhia, homonima, que desde 1991 tem um lugar de destaque dentro da produção cultural paulistana. Mas me pergunte quantas vezes eu fui ao Parlapatões!
Milhares de vezes. No bar. O bar do Parlapa é o ponto de encontro da boêmia do Baixo Augusta/Praça Roosvelt. Gente de cinema, de teatro, da música, artistas plásticos, poetas, fotógrafos, escritores.... jornalistas, filósofos, vagabundos, intelectuais... gente bonita, gente interessante, excêntricos, loucos, pirados e até alguns caretas, todo mundo passa por lá em algum momento da noite. É um dos lugares icônicos de Sampa, sem dúvidas.
Mas nunca ter ido ao Parlapatões para assistir a uma peça é uma vergonha, uma falta imperdoável. Mesmo não sendo fã de comédias, a questão não é nem de linguagem mas sim da importância do espaço, do trabalho desenvolvido nos últimos 20 anos, sempre fiel a sua proposta.
E no domingo 30 de setembro, um dia após Kassab finalmente entregar (bem meia boca, mas entregou) a Praça Roosvelt de volta aos moradores região, após séculos amém de obras tão milhonárias quanto intermináveis... pensei que eu poderia duplicar a quantidade de milagres desse final de semana, indo assistir a uma peça no Parlapa. E fui!
Mas fui na segurança do conselho de uma amiga querida, a Fabiana Almeida, que disse que eu adoraria o espetáculo The Pillowman, um texto de humor negro de um (claro) irlandês Martin McDonagh e com direção de Bruno Guida e Dagoberto Feliz.
Não gosto de peças humorísticas mas amo humor negro. E The Pillowman é super engraçado justamente porque é um texto absolutamente sarcástico, quase ao ponto de sua origem em grego (sarkastikós), que é aquilo que dilacera a carne, metaforicamente.
The Pillowman é a relação de co-existência entre O Poder e A Impotência na constante troca de papéis dentro dessas 2 possibilidades, conforme o momento de nossas vidas. A partir do interrogatório de um escritor, indiciado pelas coincidências entre seus contos e uma série de crimes cometidos na cidade, o autor nos faz refletir sobre nosso prazer em julgar e o prazer em sermos subjugados, a medida que delegamos a outros tão parecidos conosco, o direito de nos julgar e nos castigar, expurgando nossos "pecados".
Tudo isso é colocado diante de nós como uma piada. Uma piada com lâminas muito afiadas, que nos dilacera a carne. E a gente ri muito. Um pouco é de nervoso, eu acho.
Muito boa a direção de Bruno Guida e Dagoberto Feliz, a peça é densa, tem um rítmo intenso e cheia de sacadas muito boas, além de soluções cênicas muito interessantes. Flávio Tolezani, perfeito no papel do escritor Katurian K. Katurian. Mas Daniel Infantini garante os melhores momentos do espetáculo como o investigador Tupolski.
Aí eu me senti duplamente bem. Fui prestigiar um dos templos do teatro paulistano e, como recompensa. Mas e A Praça Inacabada de Kassab, hem? Fala sério.


Gênero: Drama/Humor Negro
Texto: Martin McDonagh
Direção: Bruno Guida e Dagoberto Feliz
Com: Bruno Autran, Daniel Infantini, Flavio Tolezani e outros.
Tempo: 120 minutos (1 intervalo)
Espaço Parlapatões
Pça. Franklin Roosevelt, 158 - República - Centro. Telefone: 3258-4449.
Ingresso: R$ 30,00
Dias e Hora: Sábado 20h00 - Domingo 19h00
Curta Temporada - Até 21 de outubro de 2012

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