The Clock, O Tempo Real


Sejam quais forem os recursos para narrar a passagem do tempo nas histórias, a sensação que sempre ficou para mim é a de lacunas ou a supressão de fatos ou detalhes que nunca saberemos.
Mesmo em séries de TV, onde a nossa relação com a obra se estende por bem mais que 120 minutos, nunca estaremos presente em todos os momentos do dia dos personagens.


No cinema, assim como na vida, o tempo é sempre sacrificado para a construção da nossa história. No final o que fica mesmo são os fatos mais relevantes e as trivialidades caem no abismo do esquecimento. Não resistem ao tempo.


O artista visual Christian MarClay, em sua video-instalação "The Clock", inverte esse "roteiro", juntando em uma edição primorosa milhares de fragmentos de filmes e privilegiando a contagem do tempo sem contar uma história. Ou contando várias ao mesmo tempo, visto que cada cena pode nos remeter a um filme, um ator ou um lugar.


Com 24 horas de duração, "The Clock" é uma experiência cinematográfica onde todos os fragmentos de filmes exibem de alguma forma a hora rigorosamente sincronizada com a hora real do lugar onde está sendo exibida. Ou seja, se você entrar na sala de exibição exatamente às 12h05, na tela estará uma cena de "Gigolô Americano" em que o relógio mostra exatamente esse horário.
Trata-se de uma outra maneira de interpretar a expressão "tempo real", muito popular na nossa atualidade. O artista levou vários anos pesquisando, compilando, colando e editando esse trabalho que nos deixa completamente fascinados com a sutileza e complexidade deste trabalho, bem como nos faz refletir sobre essa relação que temos com o tempo.


E essa relação também varia de acordo com a nossa idade. Pela reação que observei no público confortavelmente instalado em elegantes sofás brancos, os mais velhos apreciam a obra por mais tempo e com mais interesse que os mais jovens.
Notei também cinéfilos em disputas pessoais tentando reconhecer o maior número de cenas possível. O que não deixa de ser um excelente exercício de auto-avaliação da cultura cinematográfica de cada um.

Meu amigo Fabio Teixeira e eu entrando para ver "The Clock", a vídeo-instalação de Christian MarClay.

A obra de Christian Marclay está em exibição no novo e belíssimo prédio do Instituto Moreira Salles, em São Paulo, até 19 de novembro, de terça a domingo, das 10h às 20h. Projeções especiais das 10h de sábado às 20h de domingo, ininterruptas.



O Instituto Moreira Salles fica na Avenida Paulista, 2424.

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O Homem, O Bicho

Visitando a maravilhosa exposição "Vanguarda brasileira dos anos 1960 – Coleção Roger Wright", na Pinacoteca do Estado de São Paulo, me deparei com uma das esculturas da série "Bichos", de Lygia Clark, obra que 56 anos depois de sua criação foi o centro de uma grande polêmica justamente por seu objetivo principal, a manipulação (neste caso, em todos os sentidos da palavra).



Perguntei ao segurança da sala (mesmo já sabendo a resposta) se eu poderia tocar na obra e interagir com ela. A resposta foi um "não" quase assustado e ele não tirou os olhos de mim durante todo o tempo que permaneci na exposição.



Manipular significa usar, manusear, dar forma, alterar, modificar. Mas também significa influenciar, controlar, inventar, forjar, falsificar. O desejo de manipular manifesta-se nos seres humanos desde o Homo Habilis, nosso ancestral que viveu a 2,2 milhões de anos atrás e que descobriu que podia manipular elementos e criar ferramentas.
A manipulação de elementos da natureza provavelmente foi um dos mais signiticativos passos na evolução do homem e o Homo Sapiens, que surgiu a apenas 350 mil anos, elevou esse dom de manipular a um outro patamar. 
Com a capacidade de raciocínio abstrato, da linguagem e vivendo em comunidades, ele deixa de manipular apenas o ambiente para controlar também outros seres vivos e principalmente seus iguais. Manipular tornou-se então uma forma de poder. Para o bem e para o mal.



Ao criar a série de esculturas Bichos, em 1961, Lygia Clark - um dos principais nomes do nosso modernismo - torna-se a primeira artista brasileira a fazer uma obra de arte interativa. O objetivo era justamente tirar o público do confortável confinamento de espectador, colocando-o com agente modificador da obra.
Composta por formas geométricas simples unidas por dobradiças, as esculturas da série "Bichos" podem assumir as mais variadas formas dependendo da vontade de quem as manipula. 
Em 1961 Lygia já era considerada uma das maiores artistas brasileiras e as esculturas da série "Bichos" foram adquiridas por colecionadores importantes e exibidas nos maiores museus e galerias do mundo, mas sem a possibilidade de interatividade do público. O que também não deixa de ser uma forma de manipulação.



O coreógrafo Wagner Schwartz, inspirado por essa limitação artística imposta à obra e objetivando resgatar a proposta de Lygia Clark, criou a performance "La Bête", usando seu próprio corpo nú no lugar da escultura, para ser manipulado pelo público e também mostrando como nós também somos manipulados de muitas e muitas formas diferentes.
A nudez de Schwartz era uma referência a vulnerabilidade da obra e do ser humano, mas foi transformada em uma ameaça por grupos conservadores e moralistas, que criaram e viralizaram falsas notícias com o objetivo de manipular a opinião pública contra a liberdade de expressão artística.



Contudo, toda a polêmica gerada mostrou a atualidade da obra de Lygia Clark e a necessidade de discutir o tema "manipulação". Se em pleno século XXI a nudez pura e simples, sem nenhuma conotação erótica ou sexual, ainda causa tanta histeria, fica nítido o retrocesso cultural/intelectual da nossa sociedade, nos levando de volta à nossa condição mais primitiva, a do homem bicho, pré-histórico.



A proibição de tocar na obra, como foi a concepção original pela artista, não só torna a obra incompleta como também é prova desse retrocesso.




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Um Aronofsky by von Trier


O polêmico Darren Aronofsky (diretor de filmes como "Requiem Para Um Sonho", "O Lutador", "A Fonte da Vida", "Cisne Negro' e "Noé") nunca foi um dos meus preferidos mas me surpreendeu muito com seu mais recente, brilhante e controverso trabalho, "Mother".


Juntando textos bíblicos, Lars von Trier, um elenco poderoso e uma direção de arte primorosa, Aronofsy produziu uma verdadeira obra de arte falando sobre o papel da raça humana na destruição do planeta.
E como uma verdadeira obra de arte contemporânea, "Mother" vem sofrendo grande rejeição. O que realmente me espanta, já que a história, apesar da narrativa tensa e intensa, teoricamente é conhecida por grande parte do público.


 Assisti o filme em uma sala completamente lotada numa noite de domingo. O público acompanhou o filme em silêncio, como que tentando entender. Alguns desistiram no meio da história e era possível ver telas de celulares acesas em vários pontos.


Quando o filme acabou, voltando exatamente para seu início, 90% dos silenciosos expectadores se levantaram proferindo ofensas contra a película. Se sentiam ofendidos por não entenderem nada do que tinham acabado de ver. "Sem pé e sem cabeça" foi a frase mais ouvida após a sessão.
Realmente, para quem foi assistir a história de um casal que recebe a visita de estranhos e começa a vivenciar fatos bizarros, o filme é totalmente sem pé e sem cabeça. Mas o Gênesis e o Apocalipse estavam ali, bem na cara de todo mundo: Deus, a Mãe Terra, Adão e Eva, Abel e Caim, a maçã, Jesus e falas inteiras extraídas da bíblia.


E quem conseguiu estabelecer a relação da história com o que acontece de verdade com o planeta hoje, entendeu tudo! As relações humanas, a intolerância, o desrespeito, o fanatismo, a idolatria, a violência, as guerras, a destruição, o caos absoluto... e no meio disso tudo a vida e o amor tentando sobreviver.


A bíblia e dramas psicológicos são recorrentes nos filmes de Aronofsky, que tem formação em cinema e antropologia social. Mas "Mother" foge completamente a tudo o que o diretor fez anteriormente e mostrava um grande conflito entre o comercial palatável e o artístico duro de engolir, sem conseguir agradar nenhum dos dois públicos.
Em "Mother", ele assume o duro de engolir e se joga sem medo em um filme que pode ser o seu grande divisor de águas, marcando uma grande virada em sua carreira.


O elenco todo está impecável. Javier Bardem, surge sem sotaque e com uma interpretação precisa de um Deus frio e ao mesmo tempo fascinado pelo fervilhar das emoções e sentimentos. Ed Harris e Michelle Pfeiffer, foram escolhas perfeitas para o insólito casal Adão e Eva que faz a trama acontecer.
Mas a atuação de Jeniffer Lawrence, cada vez mais bela e mais surpreendente como atriz, joga "Mother" em um outro patamar. A força dramática e a delicadeza que a personagem exige, não seria encontrada facilmente em outra atriz da atualidade.


A riqueza de detalhes é outro ponto de destaque no filme. Sutilezas como a ferida que aparece nas costas do personagem de Ed Harris (referência clara à costela arrancada de Adão para a criação de Eva) e os 3 andares da casa que na última parte se transformam em céu, purgatório e inferno, são detalhes que tornam "Mother" um filme para querer ver de novo.


E acho que o Lars von Trier vai adorar, apesar do final esperançoso.

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A Relação Entre O Homem E A Natureza


Apesar de ser considerada um material fácil de trabalhar, a madeira através dos tempos foi mais empregada para representar divindades nas mais variadas religiões.
O italiano Willy Verginer cria grandes esculturas que surpeendem pelo realismo e pela proposta. A madeira explorada em todas as suas potencialidades se transforma em peças poéticas e críticas que exploram a relação entre o homem e a natureza.


Os dois filhos de Willy, Matthias Verginer e Christian Verginer, ambos tão talentosos quanto seu pai, seguem o mesmo caminho mas com personalidade. O trabalho dessa família de escultores eleva a um outro patamar o entalhe e às esculturas feitas em madeira.














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The Art of the Bricks


O shopping Iguatemi Campinas traz a exposição The Art of the Brick®, do artista plástico norte americano Nathan Sawaya, composta por 83 esculturas feitas com mais de um milhão de peças LEGO®.
Vista por mais de 10 milhões de pessoas em todo o mundo, essa primeira montagem da exposição no Brasil fora de uma capital.


Os tijolinhos coloridos para montar e desmontar fizeram e fazem parte da infância de muita gente mas alcançam outro nível nas mãos desse artista que abandonou a carreira de advogado e tornou-se mundialmente conhecido por suas esculturas que misturam o lúdico, a pop art e algo de surreal.


A exposição que já passou por verdadeiros templos da arte como a Oca, em São Paulo, fica no Iguatemi Campinas de 23 de agosto a 22 de outubro.





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"Solos", de Angelina Zambelli


Quando decidiu canalizar sua força criativa para a cerâmica, Angelina Zambelli foi estudar com alguns dos maiores mestres em artes cerâmicas no Brasil. Logo após seu primeiro prato já era muito claro para ela que os utilitários não eram sua vocação.
Angelina vê a cerâmica como um pintor vê uma tela em branco e sobre ela trabalha os esmaltes e óxidos que reagem de diferentes maneiras a queima em altas temperaturas, resultando em formas abstratas e cores impactantes, em parte por obra do acaso e em parte pelo controle que ela exerce sobre o processo.



Na série "Lógica" (de 2014), a artista apresentava já um grande amadurecimento e domínio de técnica embora ainda estivesse presa à modelagem do barro. A liberdade viria na série "Nuvens" (de 2015) onde suas esculturas assumiriam o papel de quadros, com a argila esticada como um canvas e suas "pinturas", feitas a fogo, ganhariam destaque.


Na exposição "Solos", inaugurada no último dia 10 de agosto na Pinacoteca Municipal Diógenes Duarte Paes - Jundiaí, vemos uma artista transformada, totalmente segura de si, mergulhando fundo em suas convicções, em suas crenças e no seu fazer artístico.
Minimalista, essencial e primitiva, a obra de Angelina Zambelli volta às origens ancestrais da cerâmica onde cuias e pequenos potes (os utilitários que ela até então renegou), ora côncavas e ora convexas, criam composições surrealistas que remetem ao feminino e a fertilidade, ao sagrado e ao ritualístico.


Ao entrar na sala da exposição o visitante se sente entrando em um templo perdido em uma floresta. Na ambientação criada pela arquiteta Larissa Carbone e pelo curador Marco Antonio Andre, o verde e os tons terrosos presentes em todas as peças envolvem toda a exposição, e um imenso painel feito a partir de fotos do Estúdio Duplo, cumpre a função de altar, onde um trecho de um poema de Cora Coralina sobre a terra, surge como uma oração.


Parte das esculturas, criadas para ficarem penduradas em paredes, estão sobre mesas convidando o visitante a examiná-las de perto ao invés de contemplá-las à distância. O ato de curvar-se produz em nós o efeito da busca (do alimento, da água, do conhecimento e da espiritualidade).
"Solos" é a terceira exposição individual de Angelina Zambelli, uma artista em ascensão no cenário da arte contemporânea, premiada com a medalha de prata na Exposição de Cerâmica Artística Ykoma (2012) e duas vezes menção honrosa na Grande Exposição de Arte Bunkyo (2013 e 2016).



Serviço:
Exposição "Solos", de Angelina Zambelli
Até 04 de Setembro
Pinacoteca Municipal Diógenes Duarte Paes
Rua Barão de Jundiaí, 109 - Jundiaí - SP
De terça a sexta-feira das 9 às 17 horas.
Aos sábados, domingos e feriados, das 10 às 16 horas
Entrada Franca
A exposição "Solos" tem curadoria de Marco Antonio Andre, projeto da arquiteta Larissa Carbone e o patrocínio cultural da Stock Brazil, Hansa Iluminação, Mig Climatização, Estúdio Duplo Fotografia, Focus Mídia Exterior e Touch Conteúdo Interativo.






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A Loucura Criativa de Adolf Wölfli


Vincent Van Gogh, Virginia Woolf, Ernest Hemingway e os nossos Bispo do Rosário e Clarice Lispector são alguns dos exemplos mais conhecidos de pessoas geniais que sofriam de doenças psicológicas. Mas há ainda um grande número de artistas que buscam a criatividade em artifícios que os tiram de seu estado normal de consciência.
Segundo Aristóteles, “aqueles que se tornam eminentes têm todos uma tendência à melancolia”. Isso talvez explique a longa lista de artistas e criadores que morrem de overdose ou são vítimas de depressão.
Mas a loucura está diretamente ligada à criatividade e a genialidade?


Nas artes plásticas esses outsiders estão cada vez mais em alta e há muitos colecionadores procurando por obras Art Brut, nome criado em 1945 pelo francês Jean Dubuffet para designar a arte produzida por criadores livres da influência de estilos e das imposições do mercado de arte.
Fundador da Companhia de Arte Bruta, Dubuffet colecionava obras produzidas por criadores fora do meio artístico: com distúrbios sociais e comportamentais, depressivos e principalmente internos em hospitais psiquiátricos onde eventualmente a arte era usada como forma de tratamento.
Para Dubuffet o suíço Adolf Wölfli (1864-1930), era o símbolo da Arte Bruta. Wölfl viveu em um hospício dos 31 aos 66 anos, período em que produziu um grande número de desenhos caracterizados por uma complexidade, intensidade e detalhismo impressionantes.


Vítima de violência e abuso sexual quando criança,  Wölfli ficou órfão aos 10 anos e passou toda sua adolescência em orfanatos. Durante sua juventude envolveu-se várias vezes em tentativa de abuso contra crianças e foi internado em 1895 em um hospital psiquiátrico em Berna, de onde nunca mais sairia.


Relatos dos médicos que o acompanhavam dizem que ele recebia todos os dias pela manhã papel e 1 lápis. Wölfli desenhava tão freneticamente que um lápis não durava 2 dias. No Natal ele ganhava uma caixa de lápis de cor, que seria consumida em menos de 2 semanas. Ele também vendia alguns desenhos para visitantes da clínica para poder comprar mais papel e lápis.


Em 1908 Wölfli começou a trabalhar em uma auto-biografia de 2.500 páginas que envolviam poesia, prosa, música e 1.600 desenhos que continham relatos reais de sua vida e também alucinações fantasiosas.




Suas obras hoje estão na Fundação Adolf Wölfli no Museu de Belas Artes de Berna.

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